imigrante pro
notas de barcelona
A primeira vez que morei em Barcelona foi para um sabático de 1 ano, que acabou virando 2, que acabou virando uma experiência que me mudou pro resto da vida, com sequelas que carrego até hoje. Tipo a minha cirurgia de apendicite que deixou meu umbigo torto, o sabático me tirou do lugar. Se você não quer ficar doidão da cabeça e peleleca das ideias, recomendo fortemente que não tire um sabático. A vida muda mesmo pra sempre.
Quando voltei pro Brasil (nem melhor nem pior apenas mais indecente), não fazia ideia do que a vida me reservaria, e ela acabou reservando uma mesa em Barcelona pra dois anos depois (quieres dentro o em la terraza?). A história de como eu vim parar aqui de novo é pra um outro texto que fale de amor (ou vocês acham que a cachorra mais burra desse calçadão mudaria a vida toda por um emprego, é claro que foi r0l4). Quero contar o que mudou, desde então, na minha relação com Barna e a vida imigrante.
Se antes eu era sabática aventureira, hoje estou me tornando imigrante pro.
Na primeira vez em Barcelona, vim atrás de descobertas e vadiagens. Cheguei no inverno, morei no primeiro mês em hostel, achando tudo lindo (novidade anestesia qualquer desconforto). Estava entusiasmada e eufórica. Hoje volto com menos taquicardia, mas sigo entusiasmada (I LOVE MUDANÇAS). Se antes não sabia o que me esperava, agora sei um pouquinho (graças a deus a gente não sabe de tudo, a vida é sempre uma estrangeira). Estou menos delulu e mais realista (pra sobreviver no exterior a gente precisa ser um pouco dos 2).
Se antes não dependia da cidade pra muita coisa, hoje me vejo estabelecendo casa, rotina, um contrato de aluguel e um encanador que está agora no banheiro consertando vazamento e uma ligação pra IKEA porque o pedido deu erro e tô no grupo de whatsapp do prédio e ontem tretei com o recepcionista da academia?????
Y ahora estoy aqui, estabelecendo mais vínculos (e também desafetos), com mais vontade de viver uma vida de bairro, decorando o nome do caixa do supermercado ao lado, do garçom da esquina e da vizinha de cima. Ruben, Josep e Julia, vocês são mais importantes na minha vida atualmente do que imaginam.
Gosto dessa sensação da vida ir tomando forma, mas tomo cuidado pra que as burocracias e a vida-adulta-imigrante não me suguem até que eu esteja triste cantando eu quase que não consigo ficar na cidade sem ser contrariado. Não quero perder a mochileira que vive em mim, que sabe viver com pouco, que aceita que as coisas dão muito errado até que dão certo, que a vida é mais gostosa se levada com leveza e safadeza. Dá pra rir um pouquinho de tudo e não se levar a sério demais, especialmente cometendo umas atrocidades linguísticas (outro dia pedi um palo-santo na lojinha natural e o cara me deu um tomate, sabe).
Quando ainda estava no Rio, assisti ao espetáculo “Enquanto você voava, eu criava raízes”, e hoje eu me vejo um pouco no papel dos dois: de casa e do mundo. Querendo fazer ninho, sem perder o encantamento das novidades.
É como diz Fernando Pessoa: ‘o meu olhar é nítido como um girassol / tenho o costume de andar pelas estradas / olhando para a direita e para a esquerda, e de vez em quando olhando para trás / o que vejo a cada momento / é aquilo que nunca antes eu tinha visto / e eu sei dar por isso muito bem / sei ter o pasmo comigo / que tem uma criança se, ao nascer, reparasse que nascera deveras / sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo'.
Criar raízes e continuar pasmada.
Também diz Pessoa que o mundo não se fez pra pensarmos nele (pensar é estar doente dos olhos), mas pra olharmos pra ele e estarmos de acordo. Esse processo de migrar e ir subindo os degrauzinhos imigrantes (não sem às vezes cair da escada e chorar) é um eterno estar de acordo. Aceitar o que a cidade oferece, as estações, a cultura e os planos tortos que a vida nos faz. Se mudar de país é aceitar o que vem, mas não deixar de sonhar.
Misturar os nossos planos com os da vida.
Sem perder o pasmo jamais.


Pelo menos não pediu uma carona, usando a palavra Ride, que aqui na Irlanda é usada com conotação sexual 😅😂 eu fiz, vida de imigrante
só lembro da gente conversando e você escrevendo seu livro com tinta y tiempo 💙 quanta coisa de lá pra cá, hermana! Amo tanto acompanhar!!