cabelo branco
alguma coisa acontece no meu cabeção
O primeiro fio de cabelo branco apareceu na minha cabeça como um concursado que toma posse muito cedo, um jovem precoce que desponta na carreira e ainda mora com os pais. Como todo fio único, era mimado, mas também batalhador: levanta cedo e nunca mais deita, o cabelinho branco sempre estava de pé. Era um fio engraçadinho, me causava uma alegria boba toda vez que o via, às vezes o arrancava com uma pinça, às vezes eu deixava ali mais um pouquinho, fio maravilha nós gostamos de você!!!
Não botaram fé, subirusdoisfiozin, e de repente começaram a surgir mais, sem estarem duros e nem de pé. Esses já vieram entrosados com o restante do cabelo, como um bando de pombos quando fica amigo das maritacas. Eles ficam mais visíveis quando chego um pouquinho da minha franja pro lado: toda vez que vou ao espelho, abro as cortinas do couro cabeludo pra conferir se ainda estão aí. É como um vício, uma sensação que não é boa nem ruim, ela apenas é: estou viciada em conferir meus cabelos brancos.
Acho que é porque gosto de mudança e é interessante presenciar essa, que acontece sem que eu precise encaixotar coisas ou cancelar a internet. Se dissesse que tenho amor por meus branquinhos, estaria mentindo pra não ser demitida do feminismo, mas se dissesse que os odeio, também não seria verdade. Algo em mim gosta de abrir as cortinas, talvez pra espiar a passagem do tempo e chegar à conclusão de que ela realmente acontece.
É que sou perdida com a minha própria idade, bem cronolost das ideias. Se estou num grupo de pessoas com 23 anos, facilmente me sinto com 22 vey juro kkk. Se eu sento pra conversar com alguém de 70, já adiciono no facebook na hora. Sei lá, sinto que tenho todas as idades do mundo. Então a minha penugem de cabelinhos brancos, a minha mecha de calopsita, é o meu marco temporal mais forte, a minha lembrança óbvia e visível de que tempo é mesmo um senhor tão bonito, quanto a cara dos meus fios.
Ainda não sei se mais pra frente vou querer assumir o cabelo todo branco ou viverei pintando, provavelmente a segunda opção porque tenho uma energia Nati Odonto, apesar de preferir as coisas naturais. Talvez atravesse o passar dos anos sem fazer botox e preenchimento, mas não resista a um loiro pérola dourado 9.31 efeito color gloss anti age da L’oreal, porque você vale muito. Envelhecer é mesmo um processo contraditório, ainda mais pra quem vive no limbo das coisas, como eu e Nati Odonto - gostamos mais de cisos que de certezas.
Estou no reino encantado das indefinições, esse lugar onde habito há anos e me acho sapatão demais pra ser hétero e hétero demais pra ser sapatão, loira demais pra ser morena e morena demais pra ser loira (acho que sou loirena). Esquisita demais pra me encaixar em padrões e padrão demais pra conseguir rompê-los. No fim I’m just a girl insegura, como todas nós fomos ensinadas a ser.
Por enquanto convivemos todos na mesma cabeça: os cabelos brancos, os castanhos, os loiros e as dúvidas. Não sei se tem algo que prepare a gente pras transformações do tempo. O GPT diria que “não é sobre se preparar, é sobre se permitir”. O Pensador diria que “O segredo é não correr atrás dos cabelos brancos, é cuidar do jardim para que eles venham até você”. Caetano diria que alguma coisa acontece no meu cabeção.
E eu diria que vida boa suja o tênis e embranquece o cabelo (ainda bem). Cabelo branco nasce pra lembrar que estamos vivas, apesar das guerras e dos homens.
Ou estamos por um fio?


Eu to feliz demais de poder ler isso aqui! Primeiro porque me identifiquei 100%, segundo pq no detox anual de instagram, tava sentindo falta dos seus textos. 😍
Hermanaaaa eu tava falando com o Max semana passada sobre isso hahaha é curioso quando eles aparecem assim e a gente vai lá e arranca, como se nunca mais fossem nascer né 😅 tbm to curiosa pra como eu vou lidar com eles no futuro, se pintando ou mantendo. Veremos isso juntas 💙